“Vamos começar do zero”, diz geólogo que perdeu 17 anos de pesquisas

4 set by João Ricardo Correia

“Vamos começar do zero”, diz geólogo que perdeu 17 anos de pesquisas

Museu continua interditado após ter sido destruído pelo incêndio (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)

O geólogo João Vagner Alencar Castro, professor do Museu Nacional, viu o momento em que seu laboratório explodiu durante o incêndio que destruiu a sede da instituição no último domingo (2). As chamas consumiram 17 anos de trabalho do pesquisador que, agora, vai ter de recomeçar do zero. Apesar do longo caminho para reconstruir o que perdeu, ele garante que a pesquisa não vai parar.

“A gente tem que se reinventar. As verbas começaram a decair dos últimos quatro anos, mas, mesmo assim, com a nossa garra, a gente dava jeito. A gente usava os nossos recursos para continuar as pesquisas. Elas não pararam e não vão parar”, disse o geólogo. “Vamos começar tudo do zero, infelizmente, mas a gente não vai desistir.”

As perdas do setor de geologia são enormes, afirma Castro. Entre as preciosidades que o museu guardava estava uma amostra de cinco litros da primeira reserva de petróleo encontrada no Brasil, na década de 1930. Sobre o poço de Lobato, na Bahia, foi construída a primeira refinaria do país.

Outro item importante do acervo era o fóssil de parte de uma baleia encontrada 15 quilômetros terra adentro no estado do Rio de Janeiro, comprovando a variação do nível do mar na costa do Brasil. Ao ser identificado, o osso serviu para embasar pesquisas que traçaram projeções para o nível do mar. A biblioteca do setor foi outra perda.

“Perdemos todos os nossos livros e exemplares históricos. A área de sedimentologia está de luto”.

Acervo indígena

Antropólogo aposentado do Museu Nacional e presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Otávio Velho desenvolveu toda a sua vida profissional na instituição. Quando se aposentou, levou os arquivos para casa, mas grande parte das pesquisas que orientou e acompanhou não tiveram a mesma sorte.

Ele destaca as perdas do acervo indígena, que preservava a cultura e a memória de comunidades que já foram extintas. “A perda do material indígena é uma perda para os grupos indígenas que estão cada vez mais conscientes do seu papel e da sua posição da sociedade e da retomada das suas tradições. É uma perda geral da sociedade e dos vários grupos que a compõem”.

Para Otávio Velho, ainda é cedo para dizer qualquer coisa sobre o futuro dos colegas que dependiam do material para pesquisas. “Eu acho que todo mundo vai ter que se reinventar”, acredita. “São verdadeiras perdas de vida. Pessoas dedicaram a vida toda a essas pesquisas e viram tudo desaparecer. E no caso dos pesquisadores do museu, é o seu próprio material de pesquisa que terá desparecido também. É uma perda de muitas vidas”.

A pesquisa de Marilia Facó sobre a língua indígena tikuna também precisará ser refeita. A linguista conta que gravações com pessoas mais velhas não poderão ser refeitas, mas, em seu caso, ainda é possível buscar falantes do idioma, um dos mais falados da Amazônia.

“Eu não tenho mais a idade que eu tinha [quando comecei a pesquisa]. Não tenho mais as mesmas condições físicas. A gente não tem mais o mesmo gás da juventude, mas tem a vontade política. A gente tem vários alunos que querem colaborar, vários alunos indígenas”, destacou. “A instituição não acabou. É claro que há o irrecuperável, mas a gente está sempre tentando recuperar daqui pra frente. Muitos povos indígenas estão vivos, as línguas estão vivas. A questão é receber os recursos necessários para refazer”.

Fósseis

A paleontóloga Luciana Carvalho não vê perspectiva para as pesquisas de seu departamento se todo o material tiver sido destruído. Ela e os colegas têm a esperança de que armários compactadores tenham preservado parte do acervo, resistindo ao fogo e ao desmoronamento do prédio.

“Se esse material se perder, a pessoa vai ter que trocar o tema das suas dissertações, das suas teses, das suas pesquisas. Não tem outra coisa a se fazer”.

Ela conta que a paleontologia do Museu Nacional guardava um acervo relevante para toda a comunidade científica internacional, com coleções que contam não apenas a história dos fósseis, mas também a história da busca por conhecimento no Brasil. “O que está sendo perdido aqui são coleções formadas desde os séculos XVIII e XIX”.

Por Vinícius Lisboa – Repórter da Agência Brasil / Rio de Janeiro

ByJoão Ricardo Correia

Formado em Comunicação Social pela UFRN. Experiências profissionais em rádio, jornais, TV, informativos virtuais e assessorias de imprensa. Editor geral do Portal Companhia da Notícia.

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